A constelação de Três-Marias e a arte de envelhecer
Em uma noite clara e muito fria, daquelas em que não esperamos que nada de importante aconteça, encontrava-me sozinho, no amplo e aprazível quintal da casa da minha irmã. O motivo pelo qual estava ali, de tão irrelevante já não me recordo. Em um canto, esquecido, um skate muito velho. Inesperadamente, recordei-me que em certa época, costumava descer, sobre um skate, com a desenvoltura e naturalidade de um profissional do esporte, as íngremes ladeiras do meu antigo bairro. Arrisquei-me novamente, após mais de uma década, a tentar uma manobra. Ao primeiro impulso, o brinquedo parou sem aviso, como conseqüência, quase o pescoço quebrei.
Recuperado do susto, mas não satisfeito, vi em outro canto do quintal, uma reluzente bicicleta, muito parecida com a que eu possuía em minha adolescência. A lembrança da minha antiga bicicleta, uma verdadeira extensão do meu corpo, com a qual executava, com a mesma facilidade com que caminhava, as mais diversas e arriscadas acrobacias, produziu em mim, um ímpeto em dar umas pedaladas naquela "magrela" deixada ao relento, totalmente negligenciada. Resoluto, comecei a pedalar! Cinco segundos e meio depois, antes mesmo de qualquer tentativa em executar antigas manobras – o que com toda certeza, me mataria – fui acometido de algo semelhante, acredito eu, a uma crise de labirintite aguda. Tontura e mal-estar obrigaram-me a desistir do intento de reviver glórias passadas - o que pode ter salvo a minha vida.
Vencido, sentei em um banco no gramado, acendi um cigarro e concluí que atingi os trinta anos, o ápice da minha idade adulta, mas que, talvez irremediavelmente, meu corpo, vítima de infindáveis horas no escritório, embora guarde uma grande reserva dos encantos de outrora, não possui mais 0,5% de gordura, e sim, uma taxa condizente com a de um jogador de dominó no final de carreira. Atualmente, andar de bicicleta me causa tontura e enjôo, o skate, mostra-se impraticável, e ambos, podem me matar. Um sorriso nervoso e inexplicável, daqueles que sempre precedem um interlúdio de depressão e melancolia, surgiu em meus lábios.
Pranteando o fato de não poder mais correr como um leopardo e saltar como um macaco, como todo ser humano em momentos de angústia, dirigi meu olhar para o céu. Afortunadamente, avistei a constelação de "Três-Marias", a mesma que, há 15 anos, no playground do prédio em que morava, onde corria de skate e saltava de bicicleta, fitava durante horas, enquanto sonhava com o meu primeiro e verdadeiro amor, a garota cuja lembrança, ainda hoje, me provoca taquicardia e faz com que as pernas tremam. Subitamente, minhas conjeturas e divagações tomaram um rumo diverso ao da melancolia, do sentimento de perda, ou da mera nostalgia. Compreendi que como toda criança comum e normal, criei e vivi todos os sonhos de minha infância, que podem ter sido diferentes das demais apenas por atributos de aspiração e imaginação de cada uma. Entre decepções, tristezas, mágoas e perdas normais e inerentes ao caminho de aprendizado e crescimento que inevitavelmente toda pessoa percorre, joguei futebol como um craque; fui policial, soldado e bombeiro; piloto de corrida, ás do bicicross e do skate. Na adolescência, a rebeldia, o primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira suspensão na escola, o primeiro porre, a primeira transa.
As lembranças que o vislumbre da constelação de Três-Marias trouxeram, levaram-me a uma conclusão tão válida quanto a anterior, porém, mais alegre e de efeitos e conseqüências tão benéficas que ainda não posso mensurar o quanto. Percebi com as minhas reminiscências, que brincava, como toda criança, com grande seriedade; que a pureza e a ingenuidade com que sonhava, eram exatamente o que me permitiam gozá-lo; que a emoção e a satisfação pessoal experimentadas com o primeiro beijo e com a primeira transa, e a intensidade, desejo e paixão com que vivi o meu primeiro amor, estão de maneira impressionante, face às inúmeras experiências e sensações pelas quais passei desde então, vívidas em minha memória.
O mais importante e significativo em tais lembranças, foi detectar que tanto a pureza e ingenuidade, quanto a emoção, paixão e a capacidade de sonhar ainda são traços determinantes em minha personalidade, e suas manifestações perceptíveis na maneira como vivo e ajo diariamente. Tal constatação não me possibilita outra conclusão que não a que, mesmo com as limitações físicas que o envelhecimento e o sedentarismo fruto da preguiça, me impõem, a minha alma, ressalvadas as mudanças nefastas ou benéficas oriundas do natural amadurecimento, ainda é a do garoto que saltava de bicicleta e descia ladeiras de skate; do adolescente rebelde e apaixonado. Talvez repouse exatamente aí, nessa capacidade que temos de reter e lembrar, fez por outra, do que realmente é importante e do que nos fez ser como somos, a arte de envelhecer sem perder a esperança, jovialidade e frescor.
Espero que no ocaso de minha existência, já bem idoso, quando me sentar em um banco de jardim novamente, antes mesmo de começar a me lamentar pelo fato de não ter mais tantos cabelos, não ser mais tão irresistível às mulheres, de não conseguir mais trabalhar quatorze horas diárias, nem tampouco beber a mesma quantidade de drinks que bebia aos trinta anos de idade, eu olhe para o céu uma vez mais, pois agora sei, que a constelação de "Três-Marias" sempre estará lá, para me lembrar da inocência e paixão do jovem que sempre acreditou, apesar de todos os percalços, dificuldades e decepções, que viver era uma constante festa.
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