segunda-feira, janeiro 10, 2005

Ser um bom jogador de pôquer: Prelúdio para uma vida

O Pôquer – um jogo de cartas praticado nos últimos 600 anos – seja lá em que vertente ou modalidade seja jogado, assemelha-se de maneira assombrosa ao nosso cotidiano.
Tal como a vida, trata-se de embate contra oponentes reais, de indecifráveis personalidades, onde a coragem é apenas uma das virtudes envolvidas. Lembrando que, identicamente ao que ocorre em nossos pequenos mundos, a mera valentia é punida severamente, e a coragem é elemento imprescindível para que consigamos enfrentar nossas limitações e amor-próprio, que na maioria das vezes nos impelem a lutar batalhas perdidas. O valente ? É sempre induzido às armadilhas tanto do jogo quanto do destino.
O discernimento e a serenidade também são vitais tanto na vida quanto no pôquer . Tais virtudes equiparam-se a lança e ao escudo utilizados por valorosos cavaleiros medievais. Na mesa de jogo, nos ajudam a identificar e a lancetar tanto o bom quanto o mau jogador; nos protegem tal qual verdadeiro escudo, do desonesto, do falastrão e do soldado de guerras psicológicas. Sempre nos trazendo a modéstia na vitória e a altivez na derrota. Na vida ? Da mesma forma se processa: valemo-nos destes mesmos atributos para nos defender da hipocrisia e do despreparo com que nos deparamos diariamente; são verdadeiras armas contra o preconceito, na medida em que os utilizamos para separar o jogador que assim o é por hobby ou lazer, da figura trágica do " viciado em jogo " – o carteado de modo geral é sempre associado a homens fracassados, de formação e caráter duvidosos; encarado como prática maldita diretamente ligada a um vício que de maneira inexorável levará seu praticante a total danação e ruína - este, muito mais um sofredor de inópia de afeição ou portador de uma disfunção química cerebral qualquer, que um apaixonado pelo jogo. O pôquer, ou qualquer outro jogo de apostas, tendo ou não dinheiro envolvido, por si só é incapaz de tornar-se um vício.
Na vida e no jogo de cartas (não serão a mesma coisa?), a observação e a concentração resolutas são determinantes para a vitória ou o fracasso. Durante um jogo de pôquer, a concentração nos pequenos detalhes tidos como ínfimos, a observação da postura e eventuais cacoetes de seus oponentes são exatamente o que separam um jogador quase imbatível do perdedor contumaz. Igualmente, no dia-a-dia é preciso que nos concentremos no que é vital, profundo, objetivo, prático e necessário para que alcancemos o almejado; observar e refletir sobre quais, e de que maneira determinadas circunstâncias, fatos e fenômenos de nossas vidas estão influindo ou conspirando para a nossa derrota, é, com efeito, o que nos torna vitoriosos ou frustrados.
Por fim, o Blefe, a essência e razão última da existência do pôquer com todas as suas variantes. O verdadeiro campo onde a guerra é vencida. Levando-se em conta que tal jogo é feito de apostas e "contra-apostas", portanto, necessariamente de perspectivas, posto que não se acordam apostas em fatos já concretizados, o Blefe exclui quase que de maneira total o "fator sorte", por um simples motivo, excetuando-se uma combinação de cartas absoluta ( royal straight flush ) por mais forte que a sua "mão" possa parecer ser, ela poderá levá-lo a uma clamorosa derrota, com isso, um grande blefe do adversário o acuará, a técnica, e não a sorte, prevalecerá. Por estas razões, o Blefe é verdadeiro mecanismo de aferição do quão corajoso, observador, concentrado, sereno e preparado um jogador é, seja para o pôquer ou para a vida. Para os que ainda não se convenceram, eu pergunto : Quantas vezes não enfrentamos momentos em nossas vidas de extrema dificuldade? Situações aparentemente impossíveis de se equacionar, onde nos encontramos sozinhos e perdidos? Quando a realidade é opressiva e sentimos medo e insegurança em nós mesmos, tendo como adversários uma circunstancial falta de estrutura e o próprio destino? Inúmeras, não? Como em uma partida de pôquer em que estamos com poucas fichas, em que após a troca de cartas não conseguimos melhorar um reles "One pair de Setes", o que nos resta para tentarmos sair vitoriosos ? Um grande blefe e nada mais ! Obviamente, é sempre possível que tanto nossos próprios destinos quanto nossos adversários na mesa de pôquer resolvam pagar, desta forma, o que teríamos então a perder que já não o estivesse ? Em relação a tal derrota, sempre haverá um consolo : foi insólito, emocionante e meu Deus... como foi divertido.

1 Comments:

Blogger Julia D said...

Aha! Muito bom, rapaz! Concordo em gênero, número e naipe. Que bom que você tem um Blog (sim, é assim que escreve), te visitarei com frequência (foda-se o trema).

bjs
J.

10 de janeiro de 2005 às 11:33  

Postar um comentário

<< Home